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Marina Ruivo

Escritora e professora, doutora em Letras pela USP, atuou no mercado editorial e em projetos culturais de fomento a leitura e escrita. Lançou em 2015 o livro Geração armada: literatura e resistência em Angola e no Brasil (Fapesp/Alameda Editorial). Em 2019, lançou o livro de poemas Nossa barca (Patuá).

Pela GÊNIO EDITORIAL, participou da coletânea Das coisas que perdemos quando você desistiu.

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De uma hora pra outra, porém, Flávio abandonou o emprego sem se explicar pro patrão, tampouco deixou recado na casa da tia dela. Esfumou-se. Nádia esperou até o domingo, desde a sexta. Como ele não apareceu, foi até a pensão onde ele morava, ver se descobria algo. A dona contou que o rapaz tinha ido embora sexta de manhã, logo depois de pagar o que devia, e explicou que não tinha a menor ideia de onde ele poderia estar. Nádia passara o sábado todo orando muito, tinha pensado em ir nos hospitais, morrendo de medo de encontrar Flávio morto, o corpo guardado numa gaveta, sem ter sido avisada porque ele estava sem documentos nos bolsos, às vezes fazia isso, saía sem nada. Por insistência da tia é que esperou até domingo, para nada. Se Flávio saíra de mala na mão é porque era pra valer, tinha ido embora, desistido dela.